Venda de medicamentos em supermercados: como ficam as farmácias de bairro?

A mudança na lei pode impactar a economia local, o relacionamento com o cliente e até a saúde pública. Entenda!

Diante da proposta que visa autorizar a venda de medicamentos em supermercados brasileiros, a questão econômica também entra em jogo: como essa mudança pode afetar as farmácias de bairro?

De acordo com o Sebrae, 8 em cada 10 farmácias no Brasil são classificadas como micro e pequenas empresas. Os dados são de um levantamento de 2023, realizado com base em informações da Receita Federal. Ou seja, o número de farmácias desse porte supera o das grandes redes. 

Por conta disso, a posição da Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias (Abrafarma) é clara: a possibilidade de venda de medicamentos isentos de prescrição médica em supermercados teria um impacto econômico “desastroso” para o setor. Atualmente, dois projetos discutem a questão: o PL 2158/2023 sugerido no Senado e o PL 1774/2019 proposto na Câmara dos Deputados.

Conforme nota assinada por Sérgio Mena Barreto, CEO da Associação, as quase 100 mil unidades farmacêuticas espalhadas pelo Brasil geram cerca de 2 milhões de empregos e atendem às demandas de 99% das cidades do país. “Como o custo da operação de uma farmácia é alto (aluguel, salários, estoques e outros), provavelmente haveria um efeito rebote de aumento no preço dos medicamentos de prescrição, impactando negativamente na saúde da população, principalmente os mais pobres.”

População se sente acolhida em farmácias de bairros

Além da saúde financeira das pequenas farmácias, as entidades defendem a importância da conexão desses estabelecimentos com os moradores da região. Em Paraíso do Sul, município de pouco mais de 6 mil habitantes no centro do Rio Grande do Sul, a empreendedora Ticiane Ferreira confirma essa realidade. Em um lugar onde quase todo mundo se conhece, ela destaca como é comum entrar numa farmácia, ser chamada pelo nome e contar com a ajuda da equipe responsável.

Proprietária de um espaço de estética e beleza no centro da pequena cidade, que abriga menos da metade dos residentes totais do município, Ticiane reforça essa proximidade em seu relato: “Quando alguém fica doente aqui em casa, preferimos ir diretamente à farmácia de confiança. Apenas chamo a farmacêutica e ela resolve meu problema. Ela consegue me explicar de forma clara sobre cada remédio e ainda faz comparações com similares, até mesmo para eu economizar. Isso porque, mesmo quando vou com uma marca certa em mente, ela me indica uma melhor e mais em conta.” 

Ticiane, que costuma comprar medicamentos como analgésicos, relaxantes musculares e expectorantes, ressalta que não se sentiria confortável em fazer as mesmas compras sem essa orientação. “No mercado não vai ter uma pessoa explicando, só vai estar na prateleira, e isso pode ser arriscado, principalmente no caso de pessoas que podem se confundir com as embalagens ou com as dosagens.” 

São relatos como esse que evidenciam o impacto que a venda de medicamentos em supermercados pode causar nas farmácias de bairro, que têm como diferencial o atendimento personalizado e a orientação profissional. Em um cenário em que esses estabelecimentos podem perder volume de vendas, especialmente de produtos de venda livre, será preciso buscar novas alternativas e oferecer serviços cada vez mais especializados. 

Leia mais: Medicamentos isentos de prescrição: qual o papel do paciente na automedicação?


Referências:

https://agenciasebrae.com.br/wp-content/uploads/2023/08/farmacias-ago-2023.pdf

https://veja.abril.com.br/saude/remedios-a-venda-no-supermercado-proposta-e-rejeitada-por-farmacias

Entrevistada – https://www.instagram.com/estetica.ticiferreira/

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