Enquanto projetos de lei sobre a venda de Medicamentos Isentos de Prescrição (MIPs) em supermercados avançam no Brasil, essa prática já é comum em outros países. Esse, inclusive, é um dos argumentos da Associação Brasileira de Supermercados (Abras) para apoiar a medida. Segundo a entidade, em nações desenvolvidas como Estados Unidos, Austrália, Reino Unido e Canadá, medicamentos sem receita podem ser comprados em supermercados. Mas será que esses exemplos internacionais são suficientes — e eficazes?
Uma pesquisa do Datafolha, encomendada pela Associação Brasileira da Indústria de Produtos para o Autocuidado em Saúde (ACESSA), mostrou que 73% dos brasileiros usam MIPs. No entanto, segundo o Instituto Data Poder 360, 66% dos entrevistados dizem buscar orientação do farmacêutico na hora de escolher um remédio sem receita. Esse dado levanta uma preocupação entre especialistas: nos supermercados, essa orientação pode não estar disponível.
Entre conveniência e segurança: o dilema da venda de remédios
De um lado, está o acesso facilitado aos medicamentos. De outro, a segurança dos pacientes. O equilíbrio entre conveniência e cuidado profissional alimenta o debate em vários países. Não existe um modelo único: as regras mudam conforme as prioridades de cada sistema de saúde. Mas a pergunta persiste: o que pesa mais: facilitar o tratamento de sintomas leves ou garantir o acompanhamento técnico e o uso racional de medicamentos?
Na Europa, por exemplo, países como Alemanha e França mantêm a venda de remédios restrita a farmácias, onde farmacêuticos orientam os consumidores. Já nos Estados Unidos, medicamentos de venda livre podem ser encontrados em supermercados com farmácias internas, supervisionados por profissionais. E remédios simples, como analgésicos e antitérmicos, são vendidos até em postos de gasolina, sem a necessidade de orientação direta.
Para o médico sanitarista Gonzalo Vecina Neto, ouvido pela Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias (Abrafarma), a diferença principal está justamente na presença do farmacêutico. “É importante que as pessoas, quando compram remédio, se sintam comprando um produto que pode fazer bem para a sua saúde, mas que, com certeza, fará mal se ele não for adequadamente pensado para aquele quadro de doença. Daí a importância de se estar na farmácia, onde pode ser assistido por um farmacêutico”, destaca.
Vecina Neto ainda alerta: a ideia de vender medicamentos nos supermercados só faria sentido se houvesse um ambiente apropriado e a presença de farmacêuticos — não apenas produtos nas prateleiras ao lado de alimentos e bebidas. “O supermercado não é um estabelecimento de saúde. E aí, mais à frente, nós vamos discutir: se o supermercado tiver um farmacêutico, ele se transforma em estabelecimento de saúde? Não, ele não se transforma em um estabelecimento de saúde. Eu já vi casos de supermercados que têm farmácias. Isso é diferente”, reforça.
À medida que o debate avança no Brasil, a grande pergunta continua: como equilibrar o desejo de facilitar o acesso com a necessidade de proteger a saúde da população?
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