Os supermercadistas e as entidades farmacêuticas estão levantando diversos argumentos para defender ou criticar a venda de medicamentos em mercados. Um dos principais pontos envolve a economia. Enquanto a Associação Brasileira de Supermercados (Abras) defende que a comercialização de medicamentos por seus associados deve levar à queda de preços por causa da concorrência, a Associação Brasileira das Redes de Farmácias e Drogarias (Abrafarma) rebate: se eles conseguem vender mais barato, por que não oferecem itens comuns – como fraldas, cotonetes e tinturas – a preços mais acessíveis?
Segundo Sergio Mena Barreto, CEO da Abrafarma, um monitoramento feito pela Associação mostra que mais de mil itens custam mais caro nos supermercados do que nas farmácias. “Por que supermercados e estabelecimentos similares venderiam medicamentos mais baratos do que as farmácias, se vendem mais caro nas diversas categorias concorrentes? Além disso, os supermercados são os grandes vilões da inflação que vivemos no Brasil atualmente, escalando preços de alimentos e outros produtos de forma alarmante. Não satisfeitos, agora se voltam para desestabilizar os preços de medicamentos. Valorizamos a liberdade de mercado, mas jamais às custas da fragilização do sistema sanitário”, afirma em nota.
O médico sanitarista e ex-presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Gonzalo Vecina Neto, concorda. Em entrevista exclusiva a este Portal, ele afirmou que o argumento da redução de preços não se sustenta. “Eu não acredito que eles consigam ficar mais baratos. Medicamentos de prescrição já são commodities, têm um preço já relativamente baixo e uma alta concorrência, porque existem muitos produtos similares, não tem um produto especializado, um que não tenha cópias. Eu não vejo como isso pode mudar a relação de acesso da população.”
Medicamento não é mercadoria
Se, por um lado, a promessa de preços menores carece de evidências concretas, por outro, surge uma preocupação importante: medicamentos devem ser tratados como simples mercadorias? É possível confiar em um tratamento sem prescrição, escolhido diretamente da prateleira, no meio das compras do mês, sem a orientação de um farmacêutico?
E se você se pergunta por que algumas farmácias vendem itens de supermercados, a resposta é simples – e pode ser conferida clicando aqui, em um conteúdo especial da Abrafarma em parceria com a farmacêutica Luana Balcevicz.
De acordo com o Conselho Federal de Farmácia (CFF), tratar medicamentos como produtos pode levar ao uso irracional, à automedicação e ao desrespeito a critérios técnicos e éticos. Na campanha “Medicamento é coisa séria! Supermercado não é farmácia”, a Associação destaca: “Não há respaldo científico para afirmar que existam medicamentos inofensivos. Ao contrário. Todos os medicamentos apresentam efeitos terapêuticos e adversos. A literatura técnico-científica destaca que existe uma tendência entre os usuários de medicamentos isentos de prescrição (MIPs) em achar que estes são mais seguros do que aqueles sujeitos à prescrição, mas os MIPs não são isentos de risco ou de necessidade de orientação farmacêutica.”
O Conselho também lembra que o Brasil conta com quase 100 mil farmácias e cerca de 220 mil farmacêuticos, e afirma que não há justificativa econômica, sanitária ou social para autorizar a venda de medicamentos em supermercados e estabelecimentos semelhantes. Além disso, reforça a importância do farmacêutico: “Medicamento não é balinha. E embora seja essencial, o acesso a ele e o seu uso devem ser orientados e supervisionados pelo farmacêutico, conforme previsto na Lei nº13.021/14. Em razão da vulnerabilidade do paciente e do risco envolvido no uso de qualquer medicamento, esse tem sido o entendimento das entidades que representam os profissionais da saúde e também o direito do consumidor”. Para saber mais sobre a importância do farmacêutico, clique aqui.
Diante desse cenário, fica claro que reduzir a venda de medicamentos a uma simples transação comercial é ignorar o papel do farmacêutico e o direito da população a um cuidado responsável e seguro com a saúde.
Leia mais: Venda de medicamentos sem receita: como os outros países tratam o tema?
Referências:
https://www.abrafarma.com.br/noticias/abrafarma-reage-contra-venda-de-remedios-em-supermercados
https://panoramafarmaceutico.com.br/setor-reage-contra-venda-de-medicamentos-em-supermercados/
https://www.cff.org.br/userfiles/Folheto%20-%20c%C3%82MARA%20%281%29.pdf