Venda de medicamentos em supermercados preocupa farmácias e levanta debate econômico

Segundo a Abrafarma, caso as propostas sejam aprovadas, faturamento do setor poderá ser drasticamente afetado

Embora a automedicação seja o principal receio envolvendo a possível venda de medicamentos em supermercados, os efeitos na economia também geram alerta. Segundo a Associação Brasileira das Redes de Farmácias e Drogarias (Abrafarma), os Medicamentos Isentos de Prescrição (MIPs) representam cerca de 30% das vendas das farmácias, e os projetos de lei em tramitação podem provocar um impacto econômico devastador, afetando principalmente os pequenos negócios. Afinal, conforme destacou o Sindicato dos Farmacêuticos no Estado de São Paulo (SINFAR-SP), milhares de empregos no setor farmacêutico estão em risco, com as farmácias de bairro podendo ser forçadas a fechar as portas.

O tema está sendo discutido nos projetos de lei PL 2158/2023 e PL 1774/2019. De um lado, defensores argumentam que a venda de MIPs em supermercados poderia impulsionar o varejo, tornando os medicamentos mais acessíveis — embora especialistas questionem se haverá, de fato, redução de preços. De outro, farmácias tradicionais teriam que se reinventar para sobreviver. Segundo a Abrafarma, a mudança afetaria o faturamento das farmácias e até seus modelos de negócios, uma vez que essas lojas oferecem serviços especializados, como orientação sobre o uso correto de medicamentos.

A Associação Brasileira de Supermercados (Abras) apoia as propostas, destacando a possibilidade de redução de custos para os consumidores. Em contrapartida, a Abrafarma rebateu em nota: “Como o custo da operação de uma farmácia é alto (aluguel, salários, estoques e outros), provavelmente haveria um efeito rebote de aumento no preço dos medicamentos de prescrição, impactando negativamente na saúde da população, principalmente os mais pobres”.

A entidade também contestou o argumento de que supermercados venderiam medicamentos até 35% mais baratos. “Nós monitoramos preços de mais de 1.000 itens comuns a farmácias e supermercados, e estes estabelecimentos vendem mais caro em 50% das vezes. Por que então já não vendem mais barato itens como fraldas, cotonetes, tinturas e outros?”, questiona a associação. Em resposta, a Abras disse que a nota da Abrafarma causa estranheza, “especialmente pelo tom agressivo em relação ao mercado, considerando que hoje a maioria das farmácias comercializa de tudo, inclusive remédios”. 

Interesse econômico pesa na discussão

Segundo o economista Silvio Arend, o mercado farmacêutico industrial brasileiro movimentou cerca de R$ 142 bilhões em 2023. Por isso, para o setor supermercadista, trata-se de um mercado atraente demais para ser ignorado. Ele também pondera que “é preciso analisar, para além de questões técnicas e legais que os supermercados deverão ser obrigados a observar – como existência de farmacêutico responsável para garantir a segurança dos consumidores –, o interesse em qual tipo de fármaco a ser oferecido, pois possivelmente não será a linha completa de medicamentos”. Isso, segundo ele, limitaria tanto o potencial interesse da indústria quanto a conveniência para o consumidor final, que continuaria dependendo das farmácias para localizar determinados remédios.

Com a reflexão do economista, fica a pergunta: mesmo que não existisse o risco do estímulo à automedicação, com remédios expostos em gôndolas durante as compras do mês, ainda restariam tantos outros problemas econômicos e de oferta reduzida ao consumidor. Por conta disso, a pauta preocupa o setor farmacêutico tanto pela questão da saúde pública quanto pela sobrevivência financeira dos pequenos estabelecimentos. Um receio que faz ainda mais sentido ao lembrar que, segundo o Sebrae, 8 em cada 10 farmácias no Brasil são classificadas como micro e pequenas empresas. E também que, muitas vezes, manter as portas abertas com saúde financeira depende de decisões tomadas com pouca margem para erro. Enquanto o setor farmacêutico espera a decisão de Brasília, resta imaginar os dois possíveis cenários, torcendo por acertos. 

Leia mais: Venda de medicamentos sem receita: como os outros países tratam o tema?

Referências:

https://www.sinfar.org.br/noticias/439-a-saude-em-jogo-os-riscos-da-venda-de-medicamentos-em-supermercados

https://mercadoeconsumo.com.br/23/01/2025/supermercados/abrafarma-se-posiciona-contra-venda-de-medicamentos-em-supermercados/

https://veja.abril.com.br/saude/remedios-a-venda-no-supermercado-proposta-e-rejeitada-por-farmacias/

https://agenciasebrae.com.br/wp-content/uploads/2023/08/farmacias-ago-2023.pdf

Entrevistado – http://lattes.cnpq.br/0491120191978112

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