Remédio não é bala: os perigos do uso frequente dos MIPs sem prescrição

Utilizar medicamentos em excesso pode causar problemas gástricos, renais e hepáticos. Veja como se proteger

“Minha cabeça está querendo doer, já vou tomar um remédio antes que piore.” Se você nunca disse essa frase, provavelmente já ouviu alguém falar. O hábito da automedicação, embora comum, representa um sério problema de saúde pública. Segundo a Fiocruz, 7 em cada 10 brasileiros consomem remédios por conta própria. Já a Associação Brasileira das Indústrias Farmacêuticas (Abifarma) estima que, todos os anos, cerca de 20 mil pessoas morrem no Brasil por conta do uso incorreto de medicamentos.

Como mudar esse cenário? Talvez o primeiro passo seja entender que remédio não é bala. E que, mesmo os medicamentos isentos de prescrição (MIPs), podem trazer riscos à saúde quando usados com frequência e sem orientação profissional.

MIPs não são inofensivos

Apesar de parecerem inofensivos — especialmente alguns comprimidos atrativos, como o ácido acetilsalicílico (AAS), rosa e adocicado —, os medicamentos são feitos de substâncias químicas. Isso significa que não são naturais e exigem controle. Ao ingerir um comprimido, o princípio ativo entra na corrente sanguínea e age em regiões específicas do corpo, como cérebro, estômago ou músculos.

Cada medicamento possui dosagens exatas que garantem a segurança e a eficácia do tratamento. Mas erros na dose ou o uso frequente aumentam os riscos de efeitos adversos.

A médica Shanna Hübner alerta: “diversas medicações são prescritas calculadas pelo peso do paciente. Ou seja, a dose que pode ser a correta pra você pode ser até mesmo letal para uma criança ou alguém com o peso menor que o seu. Outro grande problema é a restrição que os medicamentos podem ter relacionado à idade, uma vez que existem inúmeros medicamentos (muitos mesmos) que são completamente proibidos para crianças ou que até mesmo podem provocar sintomas graves em idosos.”

O uso indiscriminado, de acordo com ela, também pode causar intoxicação renal e hepática, que podem até exigir transplantes. Ela ainda pontua que os efeitos adversos podem confundir e mascarar. “Uma vez que o paciente vai ao médico, ele já explica sobre as possíveis reações e quais seriam os efeitos que a pessoa poderia sentir. Sem esse acompanhamento, o paciente talvez não perceba um efeito adverso — que pode ser grave — e deixe passar achando que é normal.”

Quando um remédio atrapalha o outro

Além do uso em excesso — como tomar o remédio mais vezes ao dia ou em doses maiores que o indicado —, preocupa a falta de conhecimento farmacológico.

“Muitas pessoas fazem uso de diversas medicações de uso contínuo, como, por exemplo, para hipertensão, diabetes e problemas renais. Neste cenário, a realização da automedicação sem conhecimento farmacológico poderia causar interações medicamentosas graves. Além disso, poderia diminuir ou até mesmo inibir os efeitos das medicações que o paciente já utiliza, resultando na descompensação de suas patologias prévias, podendo levar a internações ou emergências graves”, afirma a médica.

E esse tipo de ocorrência é mais comum do que parece. Segundo dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), foram registradas 693.143 intoxicações no Brasil entre 2020 e 2023, sendo mais da metade causadas por medicamentos. O uso acidental e a automedicação estão entre os principais motivos.

Dicas para usar MIPs com segurança

O ideal é sempre consultar um médico ou farmacêutico antes de usar qualquer medicamento, mesmo os vendidos sem receita. Esses profissionais orientam sobre o uso correto e evitam riscos à saúde.

Se não for possível buscar ajuda em todos os casos, lembre-se destas orientações:

  • Siga a dose recomendada: nunca ultrapasse o indicado na bula e respeite os intervalos;
  • Evite misturar remédios: combinações sem orientação podem causar efeitos colaterais graves;
  • Leia a bula com atenção: confira os efeitos colaterais, contraindicações e cuidados. Caso não consiga visualizar as letras pequenas, peça ajuda;
  • Não compartilhe medicamentos: o que é seguro para você pode ser perigoso para outra pessoa;
  • Tenha cuidado com medicamentos naturais: plantas e suplementos também podem interagir com medicamentos;
  • Armazene corretamente: evite umidade, calor e mantenha fora do alcance de crianças. Leia mais aqui;
  • Nunca use medicamentos vencidos: podem ser ineficazes ou perigosos;
  • Evite automedicação em doenças crônicas: o tratamento inadequado pode agravar o quadro.

E o mais importante: remédio não é bala. Medicamento não é doce, não é brinquedo e não deve ser tomado por impulso. É um recurso valioso — e poderoso — que exige responsabilidade no uso. 

Leia mais: Automedicação: é possível tomar medicamentos por conta própria com segurança?

Referências:

https://www.unimed.coop.br/site/web/cascavel/-/brasil-cerca-de-20-mil-pessoas-morrem-a-cada-ano-em-consequ%C3%AAncia-da-automedica%C3%A7%C3%A3o

https://ojs.revistadelos.com/ojs/index.php/delos/article/view/2331

https://www.instagram.com/p/DJRzvdjuxXg/?img_index=1

Entrevistada – http://lattes.cnpq.br/7550557767724049

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