Para os defensores da venda de Medicamentos Isentos de Prescrição (MIPs) em supermercados os argumentos se sustentam na tese da praticidade e do fácil acesso. Mas será mesmo que remédios no carrinho de compras, junto com alimentos, bebidas alcoólicas e produtos de limpeza, é uma boa ideia? Apesar da promessa de conveniência, a venda de MIPs em supermercados revela mais interesses comerciais do que preocupação com a saúde pública, sem considerar impactos sociais e sanitários.
O primeiro argumento – um dos mais comuns – fala da redução de preço dos medicamentos. Segundo instituições de pesquisa, expandir pontos de venda tende a democratizar preços, com uma redução de cerca de 35%, conforme a Associação Brasileira de Supermercados (Abras). Porém, essa lógica, que se inspira em setores varejistas, não resiste aos dados do comportamento atual de preços de artigos comuns aos dois estabelecimentos. Afinal, os produtos já vendidos em ambos locais são mais caros nos supermercados, como mostrou o estudo de competitividade da Nielsen.
Segundo a pesquisa, realizada em fevereiro de 2025, os grandes, médios e pequenos supermercados e atacarejos vendem itens comuns aos dois canais mais caros na maioria das vezes. Os dados consideram mais de 45 mil itens comercializados no canal alimentar e farmacêutico. Somente a Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias (Abrafarma), por exemplo, monitora mil produtos comuns a farmácias e supermercados e estes estabelecimentos vendem mais caro em 50% das vezes. Se realmente baixaria os valores, por que já não acontece isso no comércio de fraldas e cotonetes?
Supermercados ganham, mas muitos empregos se perdem
O segundo argumento não apenas preocupa como ameaça empregos. As pequenas farmácias, geralmente localizadas em cidades pequenas ou em bairros afastados, sofreriam impactos econômicos com a perda de impostos, empregos e aluguéis. Além disso, com o fechamento de farmácias nas cidades menores, a dispensação de medicamentos que exigem prescrição médica poderia ser seriamente comprometida, incluindo o Programa Aqui Tem Farmácia Popular do Brasil, que conta com 27 mil farmácias ativas.
Aliás, um dos argumentos dos defensores de projetos que circulam o Congresso, como o PL 2158/2023, cita justamente o SUS. O estudo da Fundação Instituto de Administração (FIA) mostrou que cada R$ 1 gasto com MIPs resulta em até R$ 7 de economia no SUS, devido à redução de atendimentos e afastamentos do trabalho. Para especialistas, incentivar a automedicação consciente pode liberar recursos médicos para casos graves. Mas será mesmo?
De acordo com uma pesquisa da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), os danos mais graves relacionados a medicamentos, sem contar problemas mais simples, custam cerca de R$ 60 bilhões ao ano para o SUS. Ou seja, facilitar a automedicação, como disponibilizar medicamentos em supermercados, terá efeito contrário e agravará uma situação que hoje já sobrecarrega o sistema público de saúde. O tema é tão sério que, desde 2024, há uma lei que obriga o SUS a fazer campanhas permanentes sobre automedicação.
Remédios precisam de responsabilidade, não só acesso
Embora o grande número de farmácias pelo Brasil já exclua a necessidade de aumentar o acesso aos medicamentos incluindo a venda em supermercados, o argumento de facilitar a compra de remédios não pode ser maior que a preocupação com os riscos. Isso porque nenhum medicamento pode ser tratado como um produto qualquer, como querem os defensores da proposta. Os MIPs, apesar de eficientes e seguros, não estão isentos de efeitos colaterais ou riscos e, por isso, exigem a orientação profissional. Como questiona o professor Drauzio Varella, “quem vai explicar para o comprador que aquele anti-inflamatório pode causar insuficiência renal ou que aquele remédio é contraindicado para o caso dele? A moça do caixa, o rapaz do açougue?”.
Falando em riscos, outro ponto ignorado pela sugestão é o caso das intoxicações. Nas matérias de defesa, um levantamento do Centro de Assistência Toxicológica do HC-USP é citado pois ele não demonstrou aumento de intoxicações no período em que MIPs circularam em supermercados. O que não é considerado é o período dessa pesquisa, realizada 30 anos atrás, distante completamente da realidade e das práticas sociais dos tempos modernos. Em três décadas, o setor farmacêutico mais do que duplicou a quantidade de estabelecimentos em operação, surgiram grandes redes de farmácias nacionais e o Brasil passou a contar com a política de genéricos, o Programa Aqui Tem Farmácia Popular, o Bolsa Família e a consolidação do SUS.
Se não bastasse essa mudança do cenário nacional, conforme a pesquisa Mapeamento das evidências de medicamentos isentos de prescrição registrados no Brasil: análise comparativa segundo método Grade, publicada em outubro de 2024 na Scientific Electronic Library Online (SciELO), embora uma proporção significativa dos MIPs apresente evidências de qualidade alta ou moderada, ainda existem desafios relacionados à segurança e adequação do uso. Ou seja, existe a necessidade de uma abordagem cautelosa na prescrição e uso desses medicamentos. Não é por acaso que alguns países têm revisto, nos últimos anos, sua posição com relação ao tema. Leia sobre: Por que a França repensou a venda de determinados MIPs?
E se tiver farmacêutico no supermercado?
Não é tão simples assim. As associações propõem contratar profissionais para orientar clientes, porém os próprios farmacêuticos contestam esse argumento. Em nota conjunta, o Conselho Federal de Farmácia (CFF) e outras entidades destacam que “é de suma importância que os medicamentos sejam disponibilizados à população acompanhados de orientações técnicas do farmacêutico, que deve estar presente no local de dispensação, e sempre em um estabelecimento de saúde, pois entre os principais fatores que contribuem para o sucesso do tratamento estão a qualidade, a eficácia e a segurança do produto, agregadas à orientação adequada sobre seu uso racional.”
Essa também é, inclusive, a posição da empresa farmacêutica Cimed, que prefere apostar na segurança do que ampliar pontos de venda. Nesta segunda semana de junho de 2025, a Folha de São Paulo publicou a opinião de João Adibe, CEO da empresa, a respeito da possível venda de MIPs em supermercados. Clique aqui para ler os argumentos realizados. Em resumo, considerando todas as informações, contratar um farmacêutico para atuar não muda o fato de que o supermercado nunca será um estabelecimento de saúde.
Leia mais: Consulta Pública do Senado busca entender opinião da sociedade sobre venda de medicamentos fora das farmácias
https://www.jbes.com.br/index.php/jbes/issue/view/23/23