Quais são os riscos silenciosos dos Medicamentos Isentos de Prescrição Médica (MIPs)? Rafael Lanaro, presidente da Sociedade Brasileira de Toxicologia (SBTox), aponta vários. Para ele, o primeiro passo para reduzir os casos de automedicação no Brasil é barrar o projeto que pode aumentar ainda mais os episódios de intoxicação no país.
Assim como diversas entidades da área da saúde, o pesquisador é contra o PL 2158/2023, em discussão no Senado, que trata da liberação da venda de MIPs em supermercados. Segundo Lanaro, encontrar um medicamento na prateleira, ao lado de um chocolate, pode passar uma falsa sensação de segurança ao consumidor.
Farmacêutico-bioquímico, mestre em toxicologia, doutor em farmacologia e pesquisador com atuação em análises toxicológicas de emergência e urgência, Rafael Lanaro é responsável técnico pelo Laboratório de Análises Toxicológicas do CIATox Campinas, professor de pós-graduação em toxicologia nas Faculdades Oswaldo Cruz, membro da The International Association of Forensic Toxicologists (TIAFT) — onde integra o Comitê de Novas Substâncias Psicoativas — e também do Grupo de Trabalho sobre Toxicologia do Conselho Federal de Farmácia (CFF).
Com esse currículo, ele concedeu uma entrevista exclusiva ao Movidos pela Saúde, respondendo a perguntas da Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias (Abrafarma) sobre os perigos pouco visíveis dos medicamentos de venda livre.
A seguir, confira a entrevista na íntegra.
Para começar, o uso indiscriminado dos MIPs pode ser considerado um problema de saúde pública no Brasil? Por quê?
Rafael Lanaro: Nós consideramos o uso indiscriminado de MIPS como problema de saúde pública. Dados registrados em 2024 pelos Centros de Informação e Assistência Toxicológica de todo o país, compilados pela Associação Brasileira de Centros de Informação e Assistência Toxicológica (Abracit), vêm apontando recordes de atendimentos nos últimos anos, sendo os medicamentos a principal causa de intoxicação no Brasil, com os MIPs figurando aí como a segunda substância mais frequentemente envolvida nesses casos. E, embora os medicamentos isentos de prescrição sejam considerados seguros quando utilizados corretamente, o seu uso indiscriminado, sem a devida orientação de um farmacêutico no momento de sua aquisição em farmácias ou drogarias, representa um risco concreto à saúde pública.
No Brasil, existe uma cultura bem consolidada de automedicação, frequentemente estimulada, regulada pela facilidade de acesso e pela subestimação dos riscos associados ao uso de medicamentos. A eventual liberação de venda desses produtos em mercados, sem a presença de um farmacêutico, por exemplo, tende a agravar ainda mais esse cenário ao reduzir os mecanismos de controle e segurança e orientação que são essenciais para o uso responsável dos medicamentos isentos de prescrição.
Quais são os riscos toxicológicos mais comuns associados aos MIPs? Existem princípios ativos mais preocupantes?
Rafael Lanaro: É importante esclarecer que, do ponto de vista toxicológico, não apenas os medicamentos isentos de prescrição, mas também qualquer medicamento ou substância utilizada com propósito terapêutico, não estão isentos de riscos. Quando utilizados sem orientação adequada, podem causar efeitos adversos importantes, com impacto direto na saúde da população. Nesse cenário, o acompanhamento do farmacêutico é fundamental para prevenir complicações e garantir o uso seguro.
Entre os principais riscos associados aos MIPs está a hepatotoxicidade causada pelo uso incorreto do paracetamol, que pode provocar danos severos, muitas vezes necessitando do uso de antídoto para reverter a intoxicação ou, em casos mais graves, até transplante de fígado, mesmo em doses pouco acima das recomendadas.
Esse risco aumenta significativamente quando o paciente, muitas vezes sem saber, utiliza diferentes medicamentos que contêm paracetamol em sua formulação — algo comum em automedicações, especialmente com medicações combinadas para dores e gripes. Essa situação pode ser prontamente identificada em um consultório farmacêutico, onde o profissional realiza a revisão dos medicamentos em uso e orienta sobre a possível duplicidade de princípios ativos.
Outro exemplo envolve riscos de nefrotoxicidade e de gastrite hemorrágica, efeitos associados ao uso contínuo ou inadequado de anti-inflamatórios, como o ibuprofeno e o ácido acetilsalicílico. Embora esses medicamentos sejam amplamente utilizados, eles apresentam riscos adicionais, especialmente durante surtos de dengue, como o que o país enfrenta atualmente.
No contexto da dengue, o uso de medicamentos como o ácido acetilsalicílico pode agravar quadros de hemorragia. Isso reforça a importância da atuação dos profissionais farmacêuticos, que têm papel fundamental na orientação da população sobre medicamentos que não devem ser utilizados em casos suspeitos de infecções virais — especialmente quando ainda não há um diagnóstico confirmado.
Outra situação de risco envolve a possibilidade de reações alérgicas graves associadas ao uso de medicamentos em geral, inclusive os Medicamentos Isentos de Prescrição (MIPs). Um exemplo que merece atenção especial é a dipirona, cuja utilização exige cuidado com o histórico clínico do paciente. Embora seja amplamente utilizada no Brasil, a dipirona é proibida em alguns países devido ao risco de agranulocitose, uma condição rara, mas grave, mencionada na bula. Por isso, é fundamental que o uso de qualquer medicamento, mesmo os de venda livre, seja feito com orientação de um profissional de saúde.
Além disso, a automedicação com descongestionantes vasoconstritores, quando feita de forma indiscriminada e em doses elevadas, pode levar a um aumento significativo da pressão arterial, representando risco especialmente para pessoas com histórico de hipertensão não controlada ou outras doenças cardíacas. Diante de todos esses riscos, a orientação farmacêutica torna-se essencial.
Na prática, quais sintomas ou doenças os MIPs costumam mascarar, dificultando diagnósticos mais precisos?
Rafael Lanaro: Muitos medicamentos isentos de prescrição são procurados pela população para alívio imediato de sintomas agudos, como dor, febre, congestão nasal ou desconfortos gastrointestinais. Em situações de sofrimento ou mal-estar, é compreensível que o paciente busque uma solução rápida. Os medicamentos isentos de prescrição, especialmente os analgésicos, antitérmicos e antigripais, são frequentemente utilizados por parecerem uma alternativa prática e segura — mas não são isentos de riscos. Esses medicamentos, sem orientação adequada, podem sim mascarar sinais clínicos importantes, dificultando ou atrasando diagnósticos corretos e oportunos.
Por exemplo, o uso de antitérmicos pode camuflar infecções graves e o uso de analgésicos e anti-inflamatórios podem mascarar quadros de inflamação aguda, como apendicite ou colecistite. Da mesma forma, o uso de antigripais pode minimizar sintomas de doenças respiratórias mais graves, como asma, pneumonia ou mesmo de outras viroses, como a influenza e a covid-19. O uso indiscriminado de antiácidos e antiespasmódicos também pode adiar o diagnóstico de doenças gastrointestinais complexas, como úlceras ou refluxo gastroesofágico severo. Esses são alguns exemplos de como os sintomas podem ser mascarados pelo uso de MIPs sem a devida orientação profissional.
A automedicação com MIPs pode gerar interações perigosas com outros medicamentos ou condições de saúde preexistentes?
Rafael Lanaro: Em relação às interações dos MIPs com outros medicamentos ou com condições de saúde, podemos citar alguns exemplos importantes. O uso de antiácidos pode reduzir a absorção de determinados medicamentos. É o caso de antibióticos do grupo das tetraciclinas, cujo efeito pode ser significativamente diminuído quando ingeridos juntamente com antiácidos. Outro exemplo relevante envolve o uso de anti-inflamatórios, como o ácido acetilsalicílico, em pacientes que fazem uso de anticoagulantes, aumentando consideravelmente o risco de hemorragias.
Quanto às interações com outras substâncias, destaca-se a combinação de paracetamol com bebidas alcoólicas, uma situação bastante comum. O uso concomitante de álcool pode potencializar a toxicidade hepática do paracetamol, mesmo quando utilizado em doses terapêuticas. Isso ocorre devido à indução enzimática promovida pelo álcool que aumenta a formação do metabólito tóxico NAPQI que irá causar o dano hepático.
Também existem interações com alimentos. Por exemplo, o uso de antiácidos com alimentos ricos em cálcio, como o leite, pode alterar o pH gástrico e interferir na eficácia do tratamento. Da mesma forma, a ingestão de ácido acetilsalicílico com bebidas ácidas, como suco de laranja, pode aumentar a irritação gástrica, elevando o risco de gastrite e até sangramentos. Em relação às doenças de base, pacientes com doença renal crônica ou insuficiência cardíaca precisam ter atenção redobrada. O uso de anti-inflamatórios não esteroides (AINEs) nesses pacientes pode piorar a disfunção renal e, consequentemente, a retenção hídrica, agravando assim o quadro clínico.
Além disso, o uso de descongestionantes vasoconstritores, como fenilefrina ou pseudoefedrina, pode ser extremamente prejudicial em pacientes com hipertensão arterial descontrolada. Em doses elevadas, essas substâncias podem aumentar significativamente a pressão arterial, aumentar os batimentos cardíacos e, em situações mais extremas, até elevar os níveis de glicemia.
Do ponto de vista da toxicologia, há MIPs que deveriam ser mais controlados ou até deixarem de ser isentos de prescrição?
Rafael Lanaro: É importante dizer que nenhum medicamento, mesmo os isentos de prescrição, estão completamente isentos de risco. Existe uma frase icônica na toxicologia que diz “a dose vai diferenciar o veneno do remédio”, então temos que estar sempre atentos, alertas ao uso de medicação, respeitando a orientação de profissionais de saúde. Eles, incluindo o farmacêutico, são fundamentais para prestar informações de qualidade. O farmacêutico orienta sobre como o medicamento deve ser administrado, além de avaliar fatores importantes, como possíveis interações medicamentosas e a existência de doenças de base que possam comprometer a segurança do tratamento. Por isso, é importante que um profissional seja consultado.
A toxicologia não vai apontar a necessidade geral de eliminar a isenção de prescrição de forma generalizada. A toxicologia atua principalmente na prevenção das intoxicações, em específico, luta para fortalecer os mecanismos de controle de educação e orientação a respeito do uso racional de medicamentos. Isso é uma questão muito importante. Precisamos ter consciência que os medicamentos não são isentos de efeitos adversos e riscos. Medicamentos salvam vidas desde que você os utilize sob orientação profissional.
Ao adquirir um medicamento, é fundamental que o paciente receba uma orientação terapêutica adequada, que inclua informações sobre para que serve aquele medicamento, como ele deve ser administrado corretamente, quais são os benefícios esperados com o uso adequado e, sobretudo, quais são os riscos associados ao uso incorreto e o que fazer em caso de intoxicação.
Se tivermos que elencar um exemplo de substância que pode oferecer um risco elevado quando utilizada de forma incorreta, certamente é o paracetamol. Segundo dados disponibilizados pela Abracit, o paracetamol figura como o segundo principal medicamento responsável por casos de intoxicação no Brasil, especialmente em situações acidentais.
Isso acontece, principalmente, em casos envolvendo crianças, quando há erro na administração da dose, ou em adultos que fazem uso concomitante de diferentes medicamentos que contêm paracetamol em sua formulação, ou em situações de tentativa de autoextermínio. Esse uso inadequado aumenta significativamente o risco de eventos graves, como por exemplo a lesão hepática. A hepatotoxicidade ocorre, sobretudo, quando o paciente ultrapassa a dose recomendada, ou já possui algum grau de comprometimento hepático ou faz uso concomitante de substâncias como álcool, que potencializam essa toxicidade no fígado. Nessas situações, a condição clínica pode evoluir rapidamente, exigindo hospitalização, administração do antídoto específico e, em quadros mais severos, pode evoluir até mesmo para a necessidade de um transplante de fígado.
Por isso, durante a aquisição desse medicamento em uma farmácia, é fundamental que o paciente busque esclarecimentos com um profissional farmacêutico.
Quais políticas públicas, campanhas ou regulamentações você acredita que poderiam minimizar os riscos do uso incorreto de MIPs?
Rafael Lanaro: O primeiro passo, a primeira política pública: banir esse projeto de lei [PL 2158/2023] que vai aumentar ainda mais o número de intoxicações no Brasil. Todos os Centros de Toxicologia estão registrando, nos últimos anos, aumento de 10%, 20% em relação ao número de atendimentos de casos de intoxicação. Se tivermos a venda desses medicamentos isentos de prescrição de forma livre nos supermercados, já projetamos um cenário ainda mais preocupante.
É uma situação que acaba colocando os medicamentos, de certa maneira, como uma substância totalmente inofensiva. Para a população, encontrar o medicamento na prateleira do mercado, ao lado de um chocolate, ao lado de um alimento ou, até mesmo, bebida alcoólica, pode parecer inofensivo. Ou seja, como está sendo vendido em supermercado, pode passar uma sensação de segurança e isso é um problema. Reforçamos que o lugar de medicamento é na drogaria, é na farmácia. Lá existe toda uma questão técnica sanitária, em que o farmacêutico é responsável por toda a segurança no processo, desde a compra do medicamento, da estocagem, respeitando o prazo de validade e as compatibilidades químicas, mais as questões de temperatura, umidade e luminosidade de seu acondicionamento. Existe todo um papel do farmacêutico com o cuidado com o medicamento. Além disso, a dispensação farmacêutica é feita de forma individualizada, com toda a atenção e dedicação para o paciente. A toxicologia clínica e a farmacovigilância sempre indicam que os riscos de intoxicação podem aumentar substancialmente quando medicamentos, mesmo isentos de prescrição, forem utilizados sem qualquer tipo de acompanhamento.
Outra questão muito importante: valorizarmos o profissional farmacêutico. O profissional farmacêutico tem um papel essencial em diferentes áreas, seja nas farmácias e drogarias, na indústria farmacêutica, nos laboratórios, na manipulação de medicamentos e, especificamente nas drogarias, na atividade de dispensação. Além disso, existe uma questão que está sob análise, que é a prescrição farmacêutica. A prescrição de um MIP, quando realizada por um farmacêutico, certamente oferece muito mais segurança. Esse profissional é capacitado para ouvir o paciente, compreender suas queixas, avaliar as patologias de base e as comorbidades já diagnosticadas. Isso proporciona uma qualidade maior na dispensação e no acompanhamento do uso do medicamento.
Outro ponto que não observamos no Brasil, mas poderia ser interessante, é a obrigatoriedade de embalagens de segurança para alguns produtos químicos e medicamentos. Em outros países isso já é obrigatório. Isso dificultaria, por exemplo, crianças abrirem esses frascos de medicamentos e reduziria, dessa forma, muitos casos de intoxicação graves que ocorrem em situação acidental.
Por fim, é igualmente urgente que sejam realizadas campanhas públicas de conscientização sobre os riscos da automedicação. Precisamos dar visibilidade aos dados de intoxicação, que infelizmente vêm crescendo em todo o país. É uma situação que pode comprometer ainda mais o Sistema Único de Saúde (SUS) e já está sobrecarregando os Centros de Toxicologia em todo o país.