Uma pesquisa realizada em 2015 pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) e pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) já mostrava: 33,2% das compras feitas por impulso e sem planejamento acontecem no supermercado. Dez anos depois, o Brasil discute a possibilidade da venda de remédios sem receita fora das farmácias. O país passaria então a ter medicamentos vendidos por impulso? O risco da banalização nos caixas de supermercados existe a partir da existência do PL 2158/2023 sugerido no Senado e do PL 1774/2019 proposto na Câmara dos Deputados.
Estudos sobre o comportamento do consumidor mostram que decisões de compra em supermercados são rápidas, emocionais e impulsivas. Portanto, colocar medicamentos nesse ambiente poderia levar ao uso desnecessário e perigoso. Na pesquisa, os entrevistados destacaram que as compras não planejadas são motivadas pela necessidade de levar vantagens em suas escolhas e pela ansiedade de aproveitar tudo na hora. E esse cenário segue uma década depois, com gôndolas recheadas de produtos ao lado dos caixas, estimulando a compra repentina.
Com a chance de os remédios estarem entre esses produtos, o Sindicato dos Farmacêuticos do Pará (SINFARPA) é enfático: os medicamentos não são mercadorias e a comercialização deve ser realizada em locais adequados, sob a supervisão de profissionais habilitados, garantindo a orientação técnica necessária para o uso correto e seguro. De acordo com a entidade, em nota divulgada sobre o assunto, a comercialização em supermercados facilitaria a automedicação – problema grave no Brasil – e desconsideraria o papel essencial das farmácias como estabelecimentos de saúde, cuja função vai além da venda de medicamentos.
“Rancho de remédio”
Questionada sobre a possibilidade de encontrar medicamentos em supermercados, Juciele Holzschuh, conferente de produto no ramo moveleiro da Serra Gaúcha, alerta para a chance de acontecer um “rancho de remédio” junto com as compras do mês. A expressão é usada no sul do Brasil para se referir à compra mensal de produtos de supermercado. “É bem complicado. Eu já não compro quase nada sem receita, mas quando preciso gosto de pedir a opinião na farmácia. São muitas fórmulas, nomes parecidos e difíceis”, destaca. A profissional de 31 anos também lembra outra questão: o risco de a farmácia caseira logo estar fora do prazo de validade. “Acredito que medicamento não deva ser comprado para um estoque individual. Eu compro remédio quando preciso e o suficiente para os sintomas que tenho no momento, com a certeza de que não vou misturar dois que não combinam entre si”, pontua.
Se depender do Conselho Nacional de Saúde (CNS), Juciele não precisará se preocupar em encontrar medicamentos nas gôndolas dos supermercados. Isso porque, no final do ano passado, o CNS emitiu a Recomendação nº 043, na qual sugere a rejeição de qualquer proposta legislativa que sugira essa mudança. O conselho argumenta que a medida é contrária ao direito à assistência farmacêutica e pode desencadear hábitos indevidos de consumo medicamentoso.
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Referências:
https://www.spcbrasil.org.br/uploads/st_imprensa/release_compras_por_impulso2.pdf
Entrevistada – https://www.instagram.com/ju_holzschuh/