Uso indiscriminado de MIPs compromete diagnósticos e reforça papel do farmacêutico, afirmam especialistas

Profissionais de saúde relatam como a automedicação desassistida atrasa o reconhecimento de quadros clínicos importantes

Num dia comum em uma farmácia, uma mãe adquiriu por conta própria um xarope expectorante (acetilcisteína), um antialérgico (desloratadina) e um analgésico (dipirona) para tratar o filho pequeno, que apresentava tosse produtiva, febre e prostração. Houve uma breve melhora, gerando a falsa sensação de controle do quadro. Dias depois, os sintomas pioraram e a criança foi diagnosticada com pneumonia, necessitando de antibióticos e outros cuidados clínicos.

Em outra ocasião, uma mulher adulta comprou o medicamento Pyridium® (cloridrato de fenazopiridina) por indicação de uma amiga, para aliviar ardência e urgência urinária. Apesar do alívio temporário, o remédio mascarou sinais de uma infecção urinária (cistite), retardando a busca por atendimento médico e o início do tratamento com antimicrobianos.

Esses relatos são reais e foram compartilhados pelo farmacêutico Marciano Moacir Glasenapp, que atua há 18 anos na área hospitalar e em drogarias, além de prestar consultoria em logística e distribuição de medicamentos. Para ele, os exemplos ilustram os riscos da automedicação e reforçam a importância da atuação farmacêutica na triagem e no encaminhamento adequado dos pacientes. “Ressalto, entretanto, a importância de que esse profissional atue de forma plena em suas atribuições técnicas, sem ter sua função desviada para atividades alheias à assistência farmacêutica”, defende.

A falsa sensação de segurança

A necessidade de acompanhamento técnico é ainda mais evidente diante da falta de consciência sobre os riscos dos MIPs. Segundo Glasenapp, muitas pessoas acreditam que, por não exigirem receita, esses medicamentos seriam inofensivos. “Essa percepção costuma estar associada à falta de conhecimento técnico, à influência de familiares, amigos ou vizinhos, e, com frequência, à exposição a propagandas veiculadas na televisão e em outros meios de comunicação, que muitas vezes reforçam o uso banalizado desses produtos. Essa combinação de desinformação e acesso facilitado pode levar a práticas de automedicação inadequadas, sem a devida avaliação dos riscos envolvidos.”

Uma conversa com o farmacêutico pode mudar tudo

Nos últimos anos, Glasenapp observa que a atuação dos farmacêuticos tem se tornado mais próxima e qualificada, o que aumenta a confiança da população nesses profissionais. “Essa atuação mais próxima tem contribuído significativamente para o uso racional de medicamentos”, afirma. 

Segundo ele, no dia a dia, um simples aconselhamento pode ser determinante. “Conseguimos identificar duplicidade de princípios ativos entre diferentes marcas adquiridas, orientar sobre posologia, forma de administração e alertar quanto aos riscos do uso inadequado. Além disso, avaliamos possíveis interações medicamentosas com outros medicamentos em uso pelo paciente e, muitas vezes, conseguimos evitar o uso desnecessário por meio de orientações não farmacológicas”, esclarece. 

Além disso, o farmacêutico pode reconhecer sinais de agravamento e fazer o encaminhamento ao médico quando necessário. Seja no balcão da farmácia ou no ambiente hospitalar, o farmacêutico exerce um papel essencial na prevenção de riscos e na promoção da segurança do paciente. “O farmacêutico dispõe de estratégias bem definidas – muitas delas baseadas em protocolos internos ou orientações técnicas – para conduzir o atendimento a pacientes que procuram MIPs. Esses protocolos consideram fatores como idade, gestação, gravidade e duração dos sintomas, presença de comorbidades, entre outros elementos que ajudam o profissional a avaliar se o uso do MIP é adequado ou se há necessidade de encaminhamento médico”, conta Glasenapp. 

E se não tivermos esse acompanhamento? 

Sem esse acompanhamento, os números da automedicação seriam ainda maiores. Na prática cotidiana, Glasenapp observa o uso inadequado de diversos MIPs, com destaque para os analgésicos (como paracetamol, dipirona, associações como Dorflex® e similares, além de Neosaldina® e similares), anti-inflamatórios (ibuprofeno, naproxeno), antiácidos (sal de fruta Eno® e similares, hidróxido de alumínio, sulfato de magnésio) e antiespasmódicos (como Buscopan® e similares). 

No período de inverno, é frequente o consumo de antigripais (Cimegripe® e similares), descongestionantes (como Decongex Plus®) e expectorantes (como acetilcisteína e ambroxol), ou antitussígenos.

Os principais riscos, de acordo com o profissional, envolvem a intoxicação acidental, muitas vezes resultante da associação de diferentes medicamentos que contêm os mesmos princípios ativos – o paracetamol, por exemplo, está presente em inúmeras formulações, especialmente antigripais. É comum observar pacientes utilizando múltiplas marcas comerciais simultaneamente, o que pode levar a uma sobredosagem não intencional. “Outro risco relevante é o mascaramento de sintomas de condições clínicas potencialmente graves, que deveriam ser investigadas com maior profundidade. O uso indiscriminado de MIPs pode retardar o diagnóstico e o tratamento adequado, comprometendo a evolução clínica do paciente”, explica.

Sintomas mascarados pelos MIPs

O uso indiscriminado de MIPs pode atrasar diagnósticos importantes. Veja alguns exemplos relatados:

  • Pneumonia, sinusite e outras doenças respiratórias: sintomas como febre e dor no corpo são temporariamente aliviados por analgésicos e antigripais, atrasando o tratamento;
  • Gastrites, úlceras e outras doenças gastrointestinais: antiácidos amenizam sintomas, mas adiam a investigação de causas mais graves;
  • Infecção urinária: analgésicos urinários aliviam desconfortos, mas dificultam o diagnóstico;
  • Dermatites e infecções de pele: pomadas aliviam temporariamente, mas não tratam a causa;
  • Diarreias persistentes: antiespasmódicos disfarçam sintomas que podem indicar infecção ou doenças intestinais.

Os MIPs são substâncias químicas que atuam no organismo, por isso, devem ser utilizadas com responsabilidade. “Em alguns cenários, os danos hepáticos causados pelo paracetamol superam os riscos associados à ingestão de sedativos ou antidepressivos – medicamentos de venda sob prescrição médica e com retenção de receita. Essa realidade evidencia o potencial risco envolvido no uso indiscriminado de MIPs, especialmente quando não há orientação profissional adequada”, conta Glasenapp. 

“Por isso, sempre procure a orientação de um profissional de confiança, como o farmacêutico. Ele está capacitado para avaliar se o uso do MIP é apropriado ao seu caso, identificar possíveis interações medicamentosas e, quando necessário, indicar a necessidade de buscar atendimento médico. Automedicar-se sem conhecimento pode parecer simples, mas pode ter consequências sérias”, completa.

Risco ampliado com aprovação no Congresso

O Projeto de Lei 2158/2023, que propõe a venda de MIPs em supermercados, aumenta o risco de automedicação em uma população que já lidera esse comportamento no mundo. Quem alerta é o médico Carlos Eurico Pereira, pneumologista, mestre em Ciências Médicas e membro de sociedades médicas nacionais e internacionais.

“O projeto aumenta o risco de automedicação da população brasileira, que já é uma das populações no mundo que mais faz uso de automedicação”, reforça.

De acordo com o pneumologista, que também é membro das Sociedades Gaúcha e Brasileira de Pneumologia, da Associação Americana de Tórax (ATS) e Sociedade Respiratória Europeia (ERS), estudos mostram que a prevalência de automedicação no Brasil varia entre 16% e 35%.  “Um estudo de 2024, do Conselho Federal de Farmácia, divulgou que 86% dos brasileiros reconhecem que se automedicam regularmente. Então, esse é um favorecimento para que esse risco inadequado de medicação siga acontecendo em maior número e causando danos à saúde das pessoas”, destaca, se mostrando contrário à proposta em análise no Senado.

Para o médico, é impossível comparar remédios com os outros produtos comercializados em supermercados. “Medicamentos têm uma série de reações adversas, os chamados efeitos colaterais, e ainda podem causar interações quando misturados, trazendo risco à saúde humana. Sem contar o fato de que, muitas vezes, ao fazer automedicação, as pessoas estão protelando o diagnóstico de uma doença que pode ser séria. Por exemplo, quando as pessoas utilizam medicamentos antiácidos, que são vendidos de forma livre, sem prescrição médica, por conta de queixas digestivas, muitas vezes as pessoas podem estar retardando o diagnóstico de uma gastrite ou úlcera gástrica, que pode vir a causar sangramento, hemorragia e até mesmo retardando, por exemplo, o diagnóstico de um câncer de estômago”, explica.

Lugar de medicamento não é na prateleira do supermercado

Conforme o médico Carlos Eurico Pereira, que ainda é escritor e palestrante, os riscos envolvidos na automedicação ficarão mais evidentes quando levarem os medicamentos para as prateleiras dos supermercados. “Quanto mais nós facilitarmos o acesso das pessoas, maior o risco. Precisamos ter muito cuidado em relação a esse assunto. Medicamentos extremamente comuns, como por exemplo os analgésicos, como paracetamol, podem levar, por exemplo, a perda da função renal e a insuficiência renal quando utilizados diariamente. Pessoas que têm dores crônicas, em vez de descobrirem a causa, fazem uso diário de analgésicos e isso pode ocasionar gastrite, hemorragia digestiva e insuficiência renal. Além disso, grande parte dos descongestionantes têm substâncias estimulantes e vasoconstritoras que podem, em algum grupo específico de pessoas, como idosos e portadoras de doenças cardiovasculares, trazer um prejuízo à saúde”, alerta.

“Saúde não é brincadeira”

De acordo com o especialista, um estudo brasileiro mostrou que ocorreram, entre 2008 e 2016, 21.532 mortes atribuídas a reações adversas a medicamentos, uma taxa média de 12 mortes por milhão de habitantes. “Se olharmos para pessoas acima de 60 anos, essa taxa foi de quase 40 mortes por milhão de habitantes, ou seja, um aumento significativo nesse grupo que está mais vulnerável. Então é importante entendermos que as reações adversas a medicamentos, embora não estejam entre as principais causas de mortalidade no Brasil, têm um impacto muito significativo na saúde das pessoas. Saúde não é brincadeira e não deveríamos nos automedicar sem orientação profissional”, lamenta.  

O cenário, segundo o médico, piora considerando o mundo atual, com a Inteligência Artificial e o uso frequente da internet como fonte de informação. “Para reduzir os danos do uso incorreto de medicamentos isentos de prescrição precisamos seguir apostando na educação. Mas a educação no Brasil é muito deficitária. Isso é uma questão cultural e a cultura não se muda do dia para noite. Precisamos seguir insistindo, fazendo nosso papel, orientando as pessoas e divulgando informações corretas. Nós estamos num período muito complexo para a humanidade, em que as fakes news são extremamente frequentes e elas levam, inclusive, à perda da confiança das pessoas em medidas extremamente seguras da saúde, como as vacinas ou, até mesmo, a dúvida que as pessoas começam a ter em relação à opinião médica. Às vezes ela leu alguma coisa na internet e acredita que seja mais verdade do que, às vezes, a opinião do médico especialista. É um período bastante complexo e só a educação pode mudar esse tipo de comportamento. Por isso, precisamos ficar atentos ao aumento da automedicação. Quanto maior ela for, maior vai ser o risco à saúde das pessoas. Quando pensamos em população, em quantidade de pessoas, começamos a imaginar a quantidade de problemas que isso pode trazer no longo prazo”, reflete.

E o que diz o Ministério da Saúde?

Procurado pela reportagem do Movidos pela Saúde, o Ministério da Saúde afirmou ser contrário à venda de medicamentos em supermercados. Em nota, declarou:

“O Ministério da Saúde é contrário ao Projeto de Lei 1774/2019 que propõe a venda de medicamentos em supermercados. Entre os pontos de discussão, estão o uso racional de medicamentos e as condições sanitárias exigidas para armazenamento e dispensação desses produtos. A Lei nº 13.021/2014 reconhece as farmácias como estabelecimentos de saúde responsáveis pela dispensação segura de medicamentos sob supervisão farmacêutica.”

Leia mais: “O primeiro passo é banir o projeto que vai aumentar ainda mais o número de intoxicações no Brasil”, diz Rafael Lanaro

Referências:

https://www.linkedin.com/in/carlos-eurico-pereira/

http://lattes.cnpq.br/7165532098982180

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