Se existem tantas farmácias espalhadas pelo Brasil, por que não as utilizar como uma porta de entrada do SUS? Conforme especialistas, elas poderiam ser usadas para ampliar o acesso à saúde e acelerar diagnósticos, numa estratégia para fortalecer o sistema de saúde pública. A médica, professora e coordenadora do FGVsaúde da Fundação Getúlio Vargas, Ana Maria Malik, concorda.
Conforme a especialista, essa conexão certamente poderia reduzir a fila na porta do serviço de saúde. “As farmácias podem ser utilizadas como porta de entrada para qualquer coisa. Inclusive, a experiência de outros países mostra que isso desafoga o sistema de saúde. O farmacêutico tem competência para ajudar a identificar alguns sintomas ou até com o olhar do médico, presencialmente ou na telemedicina”, afirma.
Aliás, de acordo com ela, a telemedicina e a telefarmácia não deveriam ser paralelas. “A telefarmácia tem a ver com acompanhamento, com tirar as dúvidas. É nesse ponto, eventualmente, que se identificam efeitos colaterais e se avalia se é preciso mudar algo ou não. Então, não dá para fazer telemedicina em um canto e telefarmácia em outro. Em tese, tudo isso faz parte – ou deveria fazer – de um mesmo sistema”, acredita.
Como as farmácias estão em mais de 90% dos municípios brasileiros, elas também poderiam auxiliar no rastreio de doenças, encaminhamentos e diagnósticos. Segundo a dra. Ana Maria, os testes rápidos podem servir para a triagem, conforme sua análise. “Não necessariamente vão dar o diagnóstico definitivo, mas pelo menos orientar para onde o paciente deve se encaminhar na vigência de algum sintoma”, pontua.
E a qualidade do SUS?
Para a especialista da FGV, o que pode ser oferecido nas farmácias é tudo o que as pessoas que trabalham nelas estiverem capacitadas. “Não se trata de comprometer a qualidade dos SUS, mas comprometer a qualidade dos serviços prestados. Diagnóstico mal feito você pode ter num consultório médico, numa unidade básica de saúde e num pronto-socorro. O bem feito você também pode ter em qualquer lugar”, diz.
Segundo ela, o importante não é a farmácia e a sua estrutura física, mas a capacitação de quem atende o público. “É preciso fazer triagem, orientar e, acima de tudo, ouvir. As experiências internacionais mostram que farmacêuticos podem ser utilizados na atenção primária. Não precisa ser necessariamente um médico”, opina.
A propósito, o Brasil tem muito a aprender com os países que têm uma boa atenção primária: “Tem uma série de países onde o farmacêutico é um agente desse nó do sistema. Ele faz a primeira abordagem, controla se a pessoa está ou não tomando a medicação e faz uma série de orientações, em vez de só vender ou repassar medicamentos. Isso existe e não atrapalha a atenção primária, muito pelo contrário”, complementa.
É por conta disso que o papel das farmácias pode ser muito mais amplo, principalmente com a expansão de serviços clínicos, integração com SUS, telemedicina e, inclusive, imunização. Afinal, ao ampliar o alcance da vacinação, as farmácias deixam de ser apenas locais de dispensação e se tornam novas fronteiras de cuidado, prevenção e integração com o sistema público de saúde.
Um SUS que precisa de apoio
Ao tornar as farmácias aliadas do sistema público, o SUS se fortalece. Carlos Eduardo Gouvêa, presidente-executivo da Câmara Brasileira de Diagnóstico Laboratorial (CBDL), concorda com a dra. Ana Maria Malik: as farmácias podem sim funcionar como porta de entrada para o SUS. A pandemia da Covid-19 comprovou isso.
Conforme Carlos Eduardo, a pandemia deixou marcas profundas. “Ela indicou, inclusive, que aquilo que sempre consideramos como algo certo e suficiente, na verdade não era. A estrutura de 6.500 hospitais e mais de 23.000 laboratórios mostrou-se insuficiente para lidar com o grande volume de pessoas buscando informações essenciais para sua vida”, relembra.
De acordo com ele, foi necessária a mudança da legislação para permitir, inicialmente de forma temporária e precária, que as farmácias e drogarias pudessem fazer a testagem de forma rápida, eficaz e próxima de suas residências, nos mais diferentes horários. “A autorização destes novos locais de testagem foi fundamental para ampliar o acesso a uma informação de qualidade e essencial para uma série de medidas que protegessem os próprios cidadãos”, destaca.
Hoje, conforme a Resolução RDC 978/2025 da Anvisa, farmácias, drogarias e consultórios isolados podem realizar, de forma oficial e não mais temporária, exames em caráter de triagem com amostras primárias (sangue ou fluido oral), por um farmacêutico, com liberação do resultado no próprio ato. “Esses testes rápidos funcionam como uma excelente ferramenta para trazer este cidadão, até então ‘invisível’ para o sistema de saúde, para que inicie sua jornada muito mais precocemente”, afirma.
Com isso, o Brasil teve um acréscimo de mais 90 mil unidades de saúde (farmácias) ao sistema de saúde. Além de funcionarem como uma nova porta de entrada para o SUS, Carlos Eduardo ressalta a importância para o sistema de saúde suplementar, principalmente se funcionarem de forma integrada, como é o que se espera que aconteça em breve.
Diagnósticos precoces
Com essa integração, conforme o presidente-executivo da CBDL, doenças podem começar a ser diagnosticadas mais cedo. “O fato de as farmácias estarem em praticamente todo o Brasil, mesmo nos mais longínquos municípios – onde muitas vezes sequer um posto de saúde funciona de maneira completa –, permite a necessária distribuição de testes essenciais para diversas situações, de maneira complementar com os programas de saúde pública”, salienta. O setor de diagnóstico, segundo Carlos Eduardo, enxerga um grande potencial nesta importante aliança com o SUS e as farmácias para levar o acesso a testes cada vez mais precoces e precisos.
De acordo com um estudo da Lancet Commission de 2021, cerca de 47% da população global não tem acesso a testes de diagnóstico. “Isso se torna ainda pior se considerarmos que cerca de 90% das ISTs (infecções sexualmente transmissíveis) acontecem nessas regiões onde há pouco ou nenhum acesso ao diagnóstico.” Baseado nesses achados, a OMS colocou em debate, durante a sua Assembleia Geral de 2023, uma proposta que foi aprovada como Resolução 76.5 para o “Fortalecimento da Capacidade Diagnóstica”. Tanto os países-membros, como o Brasil, quanto a própria OMS têm obrigações a cumprir, sendo uma das principais a melhoria da oferta de exames em atenção primária. E as farmácias cumprem exatamente esta parte.
Segundo ele, o papel a ser exercido pelas farmácias pode ser bem amplo por oferecer esse primeiro contato para muitas pessoas, que, se integrado ao SUS, poderá de fato reduzir em muito tempo a jornada do paciente. “Poderia inclusive contribuir para um bom sistema de vigilância epidemiológica, como ocorreu durante a pandemia através dos painéis organizados de forma muito profissional pela Abrafarma”, diz.
Gouvêa sugere ainda a possibilidade de ter um modelo parecido com a “Farmácia Popular” para uma lista de diagnósticos essenciais para os programas de saúde pública estabelecidos pelo SUS, o que seria uma forma de pulverização da oferta de maneira muito rápida. “Existem várias formas de usar esse excelente instrumento que é o diagnóstico. Mas teremos sucesso apenas se trabalharmos todos de forma coordenada, integrada e olhando o paciente como o nosso principal objetivo”, convida.
Afinal, segundo ele, as farmácias trazem algumas características importantes que podem ajudar a encontrar esses pacientes mais rapidamente: conveniência e proximidade, além de contar com um profissional que, em muitas localidades, é a maior referência em saúde, sendo respeitado e conhecido por todos, gozando da confiança de toda a família.
Leia mais: Telefarmácia: esse tipo de serviço pode transformar o atendimento em saúde?
Referência:
https://eaesp.fgv.br/pessoa/ana-maria-malik
https://br.linkedin.com/in/carlos-eduardo-gouv%C3%AAa-53a3b3