Quando o engenheiro agrônomo André Luís Tischler se mudou do Rio Grande do Sul para os Estados Unidos, em 2022, percebeu diversas diferenças culturais e estruturais entre os dois países. Uma delas chamou especialmente sua atenção: a forma de comprar medicamentos.
Morando em Saint Paul, no estado de Minnesota, Tischler se surpreendeu ao encontrar remédios sem prescrição médica diretamente nas prateleiras de supermercados. Antigripais e antialérgicos ficam à vista do consumidor, ao lado de itens de higiene ou vitaminas. Apesar disso, ele prefere adquirir esses produtos pela internet, em sites como Walmart ou Amazon, pela praticidade. E deixa no ar uma pergunta importante: o que o Brasil pode aprender com essa experiência?
Um modelo que gera dúvidas
Atualmente, dois projetos de lei em tramitação no Congresso Nacional — PL 2158/2023, no Senado, e PL 1774/2019, na Câmara dos Deputados — propõem permitir a venda de medicamentos isentos de prescrição (MIPs) em supermercados no Brasil, como já ocorre nos EUA.
Por lá, essa prática é comum. “O atendimento farmacêutico existe, se solicitado, mas não há pressão ou acompanhamento direto”, conta Tischler. Ele observa que grandes redes varejistas, como o Walmart, inclusive têm marcas genéricas exclusivas — caso da Equate, com mais de 2 mil itens como analgésicos, vitaminas e antiácidos, vendidos exclusivamente nesses estabelecimentos. Veja um exemplo clicando aqui.
Para os medicamentos com prescrição, o funcionamento segue uma lógica parecida com a do Brasil: o consumidor vai até um guichê dentro do supermercado, onde um farmacêutico fornece o medicamento solicitado.
Apesar da conveniência, Tischler reconhece limitações. Ele sente falta da variedade de marcas e dosagens e também do atendimento mais próximo. Por isso, segundo ele, se medicamentos fossem vendidos livremente em mercados brasileiros, sem esse controle, poderia acontecer o uso indevido ou exagerado, com menor cautela.
MIPs no Brasil, OTC nos EUA
Nos Estados Unidos, os chamados OTC (over-the-counter) são os equivalentes aos MIPs brasileiros. Eles são regulamentados pela FDA (Food and Drug Administration) — agência que cumpre função semelhante à da Anvisa — e considerados seguros para uso sem prescrição, desde que utilizados conforme as instruções da embalagem.
Mas será que ler o rótulo basta para garantir segurança?
Um estudo publicado na Revista de Saúde Pública, intitulado “Óbitos e internações decorrentes de intoxicações por medicamentos com prescrição e isentos de prescrição no Brasil”, revela dados preocupantes. Somente em 2018, os Estados Unidos registraram mais de dois milhões de intoxicações causadas por medicamentos. A maioria dos casos — 71% — foi classificada como acidental. E as taxas de mortalidade por intoxicação vêm crescendo desde a década de 1990.
A importância do profissional de saúde
Esse cenário reforça a preocupação de especialistas sobre o uso indiscriminado de medicamentos. Em entrevista ao Movidos pela Saúde, o médico sanitarista Gonzalo Vecina Neto, ex-presidente da Anvisa, defende a presença do farmacêutico como peça-chave no processo de compra.
Para ele, é importante que as pessoas, quando adquirem remédios, se sintam comprando um produto que pode fazer bem para a sua saúde, mas que fará mal se ele não for adequadamente pensado para aquele quadro de doença. “Daí a importância de se estar na farmácia, onde pode ser assistido por um farmacêutico. E, na medida do possível, fazer essa compra com uma indicação médica.”
Vecina também critica a tentativa de transformar farmácias em estabelecimentos comerciais comuns. “Tanto de um lado quanto do outro existe um problema. Eu não acho que as farmácias tenham que vender qualquer coisa e muito menos que tenham que se envolver com assistência médica. Da mesma forma, os supermercados, os estabelecimentos comerciais, de uma forma geral, não devem se envolver com a venda de medicamentos, sejam eles os isentos de prescrição ou qualquer outro.”
Facilidade ou risco?
A experiência americana mostra que a conveniência de ter medicamentos à disposição nas prateleiras pode ser atraente. No entanto, ela traz junto riscos reais, como a automedicação excessiva, o uso incorreto, e a ausência de orientação profissional.
Ao avaliar se o Brasil deve seguir esse caminho, é preciso ir além da praticidade. Como garantir que o acesso mais fácil não comprometa a segurança dos pacientes? Como evitar que os remédios virem produtos de consumo como qualquer outro?
Uma coisa é certa: saúde vai além do acesso — ela exige responsabilidade, informação e, sempre que possível, acompanhamento profissional. O Brasil tem muito a aprender com o que funciona (e com o que falha) lá fora.
Leia mais: “Supermercado não é estabelecimento de saúde”, diz Gonzalo Vecina Neto
Referências:
Entrevistado – https://www.linkedin.com/in/andreluistischler/