Você sabia que a enxaqueca é uma das doenças mais incapacitantes do mundo? O alerta da Organização Mundial da Saúde (OMS) chama atenção para um ponto importante: nem sempre se trata de uma simples dor de cabeça. A entidade estima que cerca de 40% da população mundial sofra com algum tipo de distúrbio relacionado à cefaleia, e que 95% das pessoas terão ao menos um episódio ao longo da vida. Mesmo assim, é um sintoma que não deve ser normalizado — especialmente quando as crises são frequentes e acabam se tornando um quadro crônico.
Pior: em muitos casos, os próprios medicamentos usados para aliviar a dor podem virar vilões. Isso porque a automedicação frequente pode transformar um incômodo passageiro em um problema persistente, enquanto o alívio momentâneo gera uma falsa sensação de controle.
Segundo a Sociedade Brasileira de Cefaleia, tomar medicamentos para dor entre 10 e 15 dias por mês, durante três meses ou mais, aumenta o risco de crises mais frequentes. Essa condição é chamada de cefaleia de rebote, ou cefaleia por uso excessivo de medicação (MOH) — sigla em inglês para Medication Overuse Headache. O que acontece é que, ao tomar analgésicos com muita frequência, o organismo se adapta à substância e o cérebro começa a reagir com mais dor. Ou seja, o remédio que deveria ajudar passa a atrapalhar.
Quando isso ocorre, a recomendação é iniciar um processo de “desintoxicação”, conhecido como washout. Isso envolve suspender o uso frequente do medicamento e adotar estratégias não farmacológicas, como técnicas de relaxamento, massagens, compressas frias, boa hidratação, alimentação equilibrada, prática de exercícios e cuidado com o sono. O acompanhamento médico é essencial: só um profissional poderá orientar sobre o uso adequado dos medicamentos, tanto para alívio da dor quanto durante a fase de abstinência.
Remédios que merecem atenção para evitar dor de cabeça crônica
De acordo com a American Migraine Foundation, organização sem fins lucrativos que apoia pessoas com enxaqueca e outras cefaleias debilitantes, alguns medicamentos mais fortes — especialmente os que causam sonolência ou dependência — apresentam maior risco de provocar a dor de cabeça por uso excessivo. No entanto, até remédios comuns e vendidos sem receita podem ser problemáticos quando usados com frequência. Veja os principais exemplos:
- Analgésicos simples: medicamentos como aspirina, paracetamol e ibuprofeno podem causar cefaleia de rebote se usados por mais de 15 dias por mês.
- Analgésicos combinados: fórmulas que misturam cafeína, aspirina, paracetamol ou outras substâncias também oferecem risco, mesmo sem prescrição. O limite de segurança é de 10 dias por mês.
- Triptanos e ergotamina: usados para tratar crises de enxaqueca, devem ser evitados em uso contínuo. O risco aumenta quando utilizados por mais de 10 dias por mês.
- Opioides e narcóticos: analgésicos mais potentes, como a codeína, também podem levar à dor de cabeça crônica quando usados com frequência.
- Cafeína: o consumo excessivo de cafeína, presente em café, chás, refrigerantes e energéticos, pode ser um gatilho. O ideal é não ultrapassar 200 mg por dia — cerca de duas xícaras de café.
Nem toda dor é “só dor”
Apesar de comum, a dor de cabeça merece atenção. O alívio rápido proporcionado pelos remédios não deve substituir o cuidado médico. O uso frequente de analgésicos, sem orientação, pode transformar um sintoma pontual em um quadro crônico difícil de controlar. Além da cefaleia de rebote, o uso contínuo dessas substâncias pode causar problemas no estômago, rins e fígado, além de levar à dependência.
Quando a dor insiste, o ideal não é apenas silenciá-la — é entender o que ela está tentando dizer.
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Referências:
https://www.sbcefaleia.com.br/noticias.php?id=349
https://americanmigrainefoundation.org/resource-library/medication-overuse-headache/