Um dos principais questionamentos sobre os projetos que buscam liberar a venda de Medicamentos Isentos de Prescrição (MIPs) em supermercados é o mesmo feito por Élida Bortoluzzi Giacomini, farmacêutica há 14 anos no Rio Grande do Sul: “Ao comprar medicamento no supermercado, o consumidor pergunta pra quem?”
A dúvida, acompanhada de preocupação, reflete a experiência de quem passou mais de uma década atrás do balcão ouvindo pacientes, tirando dúvidas e explicando riscos — inclusive os de misturar medicações sem orientação.
Segundo dados da Associação Brasileira das Redes de Farmácias e Drogarias (Abrafarma), em 68% dos casos o cliente recorre ao farmacêutico para esclarecer dúvidas sobre o uso dos medicamentos. “O papel do farmacêutico é importante na orientação porque uma medicação tomada errada pode ter várias consequências. Muito mais do que evitar problemas com a explicação correta, também é sobre para quem recorrer. Aconteceu alguma coisa? Vou lá perguntar para o meu farmacêutico! Isso é normal? Devo parar? Posso usar? O que eu faço? No mercado não existiria esse suporte”, alerta Élida.
Ela destaca que, assim como o farmacêutico não substitui o médico, o consumidor também não deveria abrir mão do mínimo de orientação. “Estamos falando de medicamentos, não de perfumaria. E o medicamento é uma questão de saúde, tanto de tratamento quanto de prevenção de doenças. Nós tratamos, mas também prevenimos. E isso precisa ser orientado”, afirma.
Clique aqui para ler também a posição do médico sanitarista Gonzalo Vecina Neto, ex-presidente da Anvisa, sobre o tema.
“É no balcão da farmácia que eles vêm tirar essas dúvidas.”
De acordo com Élida, as dúvidas mais comuns envolvem como tomar o remédio e, muitas vezes, até para que ele serve. “Por exemplo, um colírio. É muito importante anotar na caixinha do que se trata, porque você chega em casa, às vezes não usa todo o frasco, guarda, mas depois não sabe nem para o que é. São pequenas orientações que fazem a diferença, para impedir que a pessoa tome algo de aplicar e, assim, evitar intoxicação medicamentosa”, explica.
Ela também cita questionamentos sobre o uso com ou sem alimentos, a quantidade de líquido necessária ou a combinação com outros medicamentos. “O nosso papel é orientar, arrumar toda a medicação, anotar tudo nas caixinhas, como tomar, o horário, se pode com alimento, quais os possíveis efeitos colaterais, se pode tomar com outro remédio ou, até mesmo, apontar que o ideal seria consultar antes. Tem toda essa parte de suporte que no mercado não teria.”
Atenção aos sinais do corpo
Élida ainda reforça a importância do olhar atento do farmacêutico em situações delicadas. “Se a pessoa tem uma gastrite, já toma omeprazol há muito tempo, orientamos a consultar para evitar que essa gastrite dê uma lesão maior. Às vezes a pessoa vai precisar fazer uma endoscopia, trocar de medicação, enfim… Orientamos que a pessoa procure o posto de saúde ou agende uma consulta com o médico. Fazemos um trabalho de conscientização, explicando por que ela precisa se cuidar, por que deve buscar atendimento e por que pode ou não usar determinado medicamento.”
Outro ponto que preocupa a farmacêutica é o uso abusivo de anti-inflamatórios. “No caso dos anti-inflamatórios, principalmente para quem tem muita dor, o rim vai ficando descompensado. Atendo muitas pessoas que trabalham na lavoura, no meio rural, e tentamos incentivar outras alternativas, pois o uso prolongado acaba afetando o rim e o estômago. Orientamos não apenas quanto ao uso da medicação, mas quanto aos hábitos saudáveis. Explicamos a importância do trabalho multidisciplinar, de procurar uma nutricionista, fazer uma reeducação alimentar, praticar atividades físicas, marcar uma sessão de fisioterapia. Acredito que a orientação é a chave para um tratamento correto, mas também para uma melhora da saúde. Independente de receituário ou não, a conversa com um farmacêutico esclarece e busca melhorar a vida do paciente”, conclui.
Leia mais: Automedicação: é possível tomar medicamentos por conta própria com segurança?
Referências:
Entrevistada – https://www.instagram.com/elidagiacomini/