Uma pesquisa realizada no início de 2025 pelo Instituto Locomotiva revelou que 24% dos usuários do Sistema Único de Saúde (SUS) tiveram piora no quadro de saúde devido ao tempo de espera para conseguir uma consulta ou exame na rede pública. O dado ganha ainda mais peso diante de um estudo mais recente, da associação Umane, que aponta: a cada três minutos, uma internação evitável acontece no Brasil. Só em 2024, o SUS registrou 1,6 milhão de hospitalizações por condições que poderiam ter sido tratadas antes de se agravarem.
Esses casos são reflexo de falhas presentes na Atenção Primária à Saúde (APS), considerada a porta de entrada do SUS. Quando essa primeira etapa falha, o paciente enfrenta obstáculos como dificuldade de acesso a consultas e exames, diagnósticos tardios, falta de acompanhamento de doenças crônicas e baixa cobertura de ações preventivas.
O levantamento da Umane, feito com base nos dados do Sistema de Informações Hospitalares (SIH-SUS), disponíveis no Observatório da Saúde Pública, mostra que as chamadas internações por Condições Sensíveis à Atenção Primária (CSAP) corresponderam a 11% do total de 14,1 milhões de hospitalizações em 2024. Isso equivale a cerca de 794 internações evitáveis para cada 100 mil habitantes – um alerta para a urgência de fortalecer a prevenção e os cuidados básicos em saúde.
Prevenção falha e internações aumentam
O estudo do Instituto Locomotiva já indicava que parte da população convive com doenças que poderiam ser evitadas se o SUS fosse mais ágil e resolutivo. Segundo a pesquisa, 94% dos brasileiros da Classe C concordam com a afirmação: “O tempo de espera para a marcação e realização de consultas e exames no SUS coloca em risco a vida de muitos brasileiros.”
O estudo da Umane aponta ainda que a maioria das hospitalizações evitáveis em 2024 ocorreu entre pessoas com 65 anos ou mais, seguida pelas faixas de 55 a 64 anos e de crianças com até 4 anos. As principais causas foram doenças crônicas, como diabetes tipo 2 e doenças cerebrovasculares, além de pneumonias bacterianas em crianças pequenas.
Como mudar esse cenário? Por meio de uma atenção primária eficiente. Com acompanhamento regular, essas condições poderiam ser monitoradas desde cedo, tratadas precocemente e até mesmo prevenidas – evitando complicações e internações.
As farmácias podem ajudar?
Um estudo publicado em 2024 no Brazilian Journal of Health Review destaca que a assistência farmacêutica tem papel central na Atenção Primária, promovendo o uso racional de medicamentos e enfrentando desafios como a automedicação. “A atenção farmacêutica, quando integrada de maneira efetiva na APS, emerge como uma ferramenta poderosa para melhorar a qualidade de vida da população e contribuir para a sustentabilidade do sistema de saúde”, afirma o texto.
O acompanhamento feito por farmacêuticos é essencial para promover a adesão ao tratamento, prevenir complicações e melhorar os resultados em saúde. Integrar essa assistência às políticas públicas pode ser um passo estratégico para reduzir hospitalizações evitáveis e oferecer um cuidado mais próximo e contínuo à população.
Isso significa reconhecer o papel do farmacêutico não apenas como responsável pela dispensação de medicamentos, mas como profissional de saúde capacitado para identificar riscos precocemente, orientar sobre o uso seguro dos remédios e contribuir de forma ativa na gestão de doenças crônicas.
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Referências:
https://ojs.brazilianjournals.com.br/ojs/index.php/BJHR/article/view/67759/48213